quarta-feira, setembro 02, 2009

Bianca

Os poucos a quem contei sobre isso, entendem o porquê. Cansei de ficar procurando mais caixinhas de segredo. Às vezes o melhor para a alma é a VERDADE, em letras garrafais, pra todo mundo ler.

A tal Bianca. Dessa vez não é a minha cadela e sim ‘ela’. De quem a maioria que me conhece já ouviu falar. A ‘personagem’ que definitivamente viveu muito no meu imaginário este último ano.

Não sei bem como aconteceu. Antes era o completo desdém pelo passado de uma pessoa que me interessava... Eu o conheci em Abril, junto com suas histórias e sua antiga vida cheia de pasmos. Depois de muito ouvir sobre a tal “criaturinha especial” eu descobri em mim uma certa simpatia. A musa de um aspirante a artista: era ela. E no dia que a vi pela primeira vez (na Neo), tive uma sensação estranha, um choque que eu não sei bem como explicar se espalhou pelo corpo até as pontas dos dedos. Cabelos pretos e muito lisos. Acompanhada de uma gordinha loira randômica que se “escondia” por trás da companheira. Os olhos eram iguais aos dele e só me lembro que beijei o Rapha rapidamente. Uma tentativa de descarregar o nervosismo. Aquela noite eu inventei todas as desculpas possíveis pra poder passar por ela e tentar algum contato meio “acidental”. Não rolou. Rolou de tudo, mas não ela.

Passou pouco tempo. Naquela época, meu relacionamento pendente com o Rapha me maltratava demais. Eu estava louca pra me atirar feito um gatinho sem dono, mas tinha tanta vida, tanto chão pela frente antes de começar um relacionamento sério. Pra mim, namoro era freio e submissão; um adeus para parte de si. Não queria aquilo. Não queria desejar aquilo. E toda vez que ele ameaçava sumir eu me desesperava. Queria mais um tempo, mais uma chance talvez. Decidi me testar naquela noite de julho. Meus amigos iriam sair para um velho rendez-vous alcoólico. Não queria ele perto de mim... eu era fraca perto dele. Fui viver à moda romana, esquecer do ‘cara’ e de um pouco de mim que estava lá. Eu bebi aquela noite, não notava o gosto, nem contava os copos. Senti-me horrível. Eu sorria para as pessoas amarelo e caminhava torto com minhas botas de salto quadrado e cadarços amarrados metodicamente. Fazia piadas de mau gosto. Dancei pouco e agarrei uma menina que se esfregava em mim (que depois virou três, no modo ego: [on]). Beijo sem vontade, amargo... tive que me sentar... sofá, cadeira, chão, parede, mãos por todo lado... música estridente no ouvido. Era tudo amplificado... precisava sair. Vomitar tudo. O chão do cabaret era apenas fluido que jorrava de minhas entranhas, raivoso. Chorei contido. As pessoas olhavam. Pedi pra ir embora e no apartamento eu chorei pra mim. Batia a cabeça na parede tentando dormir, parar de girar e dormir. Eu fui para o banheiro sem tirar as roupas impregnadas de cigarro, cheiro amargo de bílis. Não fechei o box. Nem liguei a luz... era uma atmosfera densa, de um azul pálido que vinha do céu através da janela.

Nesse dia eu quase morri. Tentei manter a calma, porque ele sempre voltaria – pensava eu. Só tinha que conversar. Declarar-me-ia e ele me perdoaria. E perdoou. Mas era uma noite tarde de mais. Foi o reencontro. Foi ela que apareceu. Dessa vez rolou ela. E eu desabei. A Bianca agora era rival. E senti o sentimento mais repulsivo e ‘feminino’ que alguém poderia ter. Foram anos pra conseguir encontrar alguém que me fizesse sentir tudo aquilo. Não o perderia. Foi instaurada uma disputa silenciosa dentro de mim. Precisava ser melhor, sendo eu mesma. Chorei para todos o meu drama e decidi ser a pessoa mais dedicada do mundo com ele. Eu tinha esquecido de mim sem Raphael. Eu precisava dele... preciso!

E o namoro começou conturbado.Com sustos, com amor pulsante, declarações, receios e ciúmes. Ele demorou até conseguir esquece-la. Esquece-la como a mulher. E eu sofri. Eu demorei pra entender o motivo daquela insistência dele. E o sentimento de asco reverteu-se novamente. Nessa época resolvi reciclar um de meus antigos blogs. Voltei a escrever depois de deletar o que tinha antes e eis aqui a obra. Ela, indiretamente, foi o motivo que me fez voltar a escrever. Para desabafar. Pra largar um pouco de mim pro mundo. Ser eu fora de mim. E, cá entre nós, foram muitos os posts falando sobre ela, sem falar dela. Ninguém até hoje soube dizer. Quando peguei o Rapha lendo um tal “Escreve-me” eu corri atrás.

Depois de um balde de água fria, eu me apaixonei. Pela pessoa na posição mais inconveniente que poderia existir. E foi uma paixão meio quieta e sossegada. Não podia gostar. Não podia trazer nada remetente a ela pra perto do meu namorado. Era meu agora. E que se perdesse em sua nova vida. Meus sentimentos contraditórios pela mesma pessoa eram algo que só eu entendia. Aprendi a separar passado de presente.

Meu novo relacionamento estava começando a crescer de uma maneira inesperada e muito bonita. Éramos crianças explorando o mundo, a vida, o sentimento um pelo outro, descobrindo a pessoa amada. E ela se perdeu. Na minha cabeça eu ainda pensava nela com carinho, como alguém que eu já tivesse conhecido. Voltei uma ou outra vez pra ler a página dela. Um sentimento de apreço, meio abstrato. A idealização de uma pessoa ideal, cativante, dedicada com a sua profissão e família. Sonhava seguido com ela. Sonhos pueris e muito simples. Conversas aleatórias, e eu só acordava me perguntando se aquela seria realmente a sua voz. Mais doce, timbre mais feminino que o meu, porém firme. Ideal – falava comigo mesma.

Queria uma amiga. Queria conhece-la e falar do que achava sobre os livros que ela lia e aquelas passagens irritantes de alguns autores, que insistia em compilar, quando eu pensava que ela tinha condições de falar aquelas tantas coisas com as próprias palavras. Queria trocar experiências, perguntar sobre as rotinas de hospital e linkar tantos fatos e nomes que ela citava que tinham a ver com a minha vida também. Muita coisa. Tive inveja daquela amiga randômica dela, mas uma inveja boa, se é que existe. O máximo que consegui foi um comentário aleatório e um e mail em resposta estúpido do qual me arrependo até hoje. Não queria trazer de volta o que levou tanto tempo pra ser esquecido, mas queria a pessoa fora tudo aquilo. Uma pessoa à parte do passado. Mas não da. Senti na raiva que tive quando o ‘atual’ dela jogou cerveja no Rapha aquela festa. Não dá.

E o personagem acabou perdendo todo aquele encanto. Ela já não era mais tão bonita, nem mais tão ‘especial’ ou erudita (eu também leio Caio, Lispector, Nin e Palahniuk, desde os primórdios e ainda assim gosto de ficção cientifica, extraterrestres, espinhas dorsais, arte de verdade e o diabo a quatro). Nobre na sua vocação de enfermeira. Mas quantas enfermeiras ótimas já conheci. Era normal. Uma pessoa normal idealizada. Uma paixão platônica que acabou cansando com o desdém. Uma mulher a qual as pessoas insistiam em comparar comigo pra me deixar mais confiante. E eu aceitava ou não. Karma de ex, karma da atual. Esqueci um pouco dela, voltei a vida. Fiquei ansiosa quando ela ligou pra ele. Quando pedi pra ele ligar pra ela. Mas só. Fui feliz nos meus finais de semana, viagens fantásticas com a família, nas festas do meu magrelo, nos jantares, filmes, indiadas, estudos, sensações novas para ambos. O ideal era um personagem que eu resolvi apagar. Aproveitar a época de reciclar amizades, rever prioridades. Apagar.

Virei a página que ninguém nunca soube da existência, até então.

Esses dias fui toda espoleta futricar no twitter e achei o dela com link pro blog. No embalo tentei escrever mais um e mail, menos nervoso dessa vez. Convenci a mim mesma de que não esperava respostas. Não recebi respostas. E acho que esse foi o ponto.

Uma baita fantasia pueril. De criança que sonha com a amiga perfeita, a barbie de verdade, a confidente que eu nunca tive. Porque, sem fazer drama, nunca mais tive amigas depois da oitava série. O Rapha disse que descontei nela, que eu tive síndrome de Estocolmo, se vocês entendem.

E eu sorri pela última vez disso aqui, agora.

O prazer foi ‘todo’meu.

4 comentários:

Pâmela Martini disse...

Que também, depois de saber todas as coisas que ela fez... não da mais nem vontade.

mario disse...

impressionante menininha!.
impressionante..

Pâmela Martini disse...

??????

Daniê Kitsch disse...

Interessante, visto que já passei por algo parecido(se não, quase igual).