quarta-feira, setembro 02, 2009

Raphael

Conheci o Raphael em uma dessas fatalidades da vida moderna. A maior de todos os tempos. Tudo com a gente foi rápido de mais e eu fui quem mais estranhou, evidentemente. Pensei que seria a diferença de idade, mas não. Era a diferença de ideais. Mentalidades adversas que, contradizendo toda a “lógica dos astros”, se encaixaram perfeitamente depois de alguns meses, como duas peças distintas de um quebra-cabeça – se complementam.

Fora todo o blá-blá-blá deveras romântico, absolutamente nada foi tido como convencional. Vivíamos um amor contido e tínhamos outros parceiros, eu tive outros eventuais parceiros. Nada valeu a pena comparado com aquilo que quase perdi estando de baixo do meu nariz, ajoelhado e pronto para aceitar qualquer pedido meu. Um homem que não podia dar o valor na época por causa desses tais ideais, minha liberdade de “expressão”. Fui injusta com ele alimentando meu próprio hedonismo egoísta com o seu apego. Eu achava amor algo muito distante pra mim, que beirava uma realidade moral psicopata.

Aprendi do jeito mais difícil. Ele ensinou-me, eficaz, quando já não queria mais. E eu me senti doente, podre, cinza por dentro e sem circulação. Descobri o que era sofrer de algo que nem ao menos sabia que estava lá dentro, vivendo forte tentando combater os patógenos morais dentro de minha carne. Foi o auge de uma doença incurável; os sintomas de uma metástase pungente. Dolorida. Eu realmente o amei; menti de cara lavada. Omiti pra ser feliz como eu ainda sabia ser: libertina. Nenhuma mulher mudou isso dentro de mim. Aquela foi a pior ironia que já me aconteceu... e eu lutei para manter o “câncer”. Chamo assim pois assim que o senti: devorando tudo que eu pensava ser e não era. Fui até ele me redimir, pedir por favor. Implorar amor da maneira mais sincera possível. Senti aquele quarto frio, morreria se não fizesse mais parte daquilo. Os travesseiros velhos e as colchas estampadas, puídas nas pontas, aconchegantes. Aquele computador, as fotos. Não podia falar. Comecei a soluçar, chorar de dor sem me preocupar com o cabelo e a maquiagem, sem pensar em mim. Estar com alguém sem estar. E ele me consolava com um abraço quente, machucado. “Pelo menos um de nós já está encaminhado.” – eu disse num tom irônico, com um certo asco de mim, num instante de lucidez. Foi uma frase que saiu cortando. Eu não aceitava aquilo e nunca aceitei.

Passaram-se os dias. E as conversas nervosas se transformaram em entrega. Voltei das férias e decidimos nos reencontrar no Villa com mais dois amigos. “Fala” – ele sorria pra mim e foi a maior pressão de todos os tempos. Não tinha mais beijo que enrolasse àquela hora. Agora ou nunca Martini: “T’ amo” – meio cortado, pra dentro. Ele respondeu. Que hora mais incrível, nem as borboletas são tão leves. Minha maquina de lavar ficou capenga, A batalha dentro de mim tinha sido vencida, a batalha contra “inimigos” tinha sido parcialmente vencida. Já era mais Pâmela do que Martini, mais uma vez... e ele, mais Raphael, que Drug. Desprovi-me das mascaras, ele manteve algumas para esconder a tristeza. Sabia que por um lado sofria. Eu tentei ser a mulher forte que nunca fui para um homem. Fui família e descobri quão maravilhoso era poder chamar alguém de amor, de criatura dos infernos, monstro horripilante das profundezas, magrelo coisudo do meu pequeno ser.

Muita coisa afterwards está aqui, em meio estes posts de nomes que só eu sei decifrar. Cheios de coisas implícitas e omitidas. Cheio de Raphael, um pouco de Bianca, família, antigos casos, sentimentos fortes de nostalgia e retóricas para convencer as pessoas de um outro estado das coisas que não o verdadeiro.

Ele mudou muito. Mostrou-se a pessoa mais obstinada dentro de um relacionamento. Ficou manso e compreensivo. Um Raphael ideal, sem idealizações, sem personagem e vestido, tudo a mais pura verdade. Sem contos de fada e frases de impacto para fundamentar o relacionamento como: “Nossas diferenças nos completam” – nada ostensivo. Nossas diferenças não eram nem nunca serão complementares e sim uma oportunidade em potencial de criar e desenvolver idéias e raciocínios. Ele nunca mais fugiu, nem precisou de tempos de distância. Viramos amigos e companheiros acima de tudo. Sem medo ou receio de falar para o outro o que pensa. Preguiçoso, perfeccionista, cabeça-dura, bitolado, conformado. Sempre as discussões, fotografias e planos que nunca saem. Mas tudo está se encaixando. Finalmente.

Um ano, e um mês.

Nem aqueles filmes independentes, que insistem em mostrar o lado humano das pessoas, são mais cativantes do que nossa vida. “...um dia de tédio no teu colo... um céu meio claro já basta pra tudo funcionar. Eu te vejo como um ponto de equilíbrio que oscila, e este ponto nunca estará no mesmo lugar. E tudo é novo no dia seguinte. Tudo: somos nós outra vez”.

Um beijo na proeminente e uma boa noite.

Um comentário:

Pâmela Martini disse...

E SIM! Não canso de ter raiva. Queria te-lo conhecido quando ainda era mais obstinado com a carreira.