terça-feira, janeiro 05, 2010

Um crime passional


Sim, um dia eu aprendi a dar tapa com luvas de pelica, mas nunca assimilei bem essa lição e por isso não existem papas ou bispos na língua que ditem o que sairá da minha boca. Principalmente hoje: terceiro dia do ano, início de um ano que sucede outro que pra mim nem acabou direito, ou que deveria ter acabado muito antes. Ano cheio de problemas não esperados, que desceu como fel pela garganta seca. Anfã. Dias de cão are over, mesmo não acreditando em numerologia, astrologia e mega sena acumulada.

Quarta (quarta? whatever). Atiro-me saudosa sobre o homem que aparece no corredor, com uns cabelos incertos e muito pretos caindo-lhe sobre os olhos. Ele me enlouquece às vezes, outras eu não dou bola... tudo é surpresa. Saiu mais cedo do trabalho para tomarmos banho de piscina. Duas crianças sozinhas na água claríssima, brincando como adultos, mãos, línguas e a pele escorregadia, rindo. De tudo. Os cães deitados preguiçosos sobre as lajotas vermelhas e as paredes projetando uma pálida sombra de um dia cinza. Ás 20 e poucas horas da noite, sob aquela luz difusa que insistia permanecer, “voltamos” pra casa. Ele e um colchão. Roupas atiradas, festas, dinheiro, um computador e o tempo ao nosso favor. Assim começaria meu ano. Respirei fundo o ar viciado do quarto e quis abrir as janelas. Quis sair. Fomos ao velho Bambus, sentar nas velhas mesas, concertar os corações partidos, falar putaria, beber e arrotar como homens dignos de suas genitálias... menos eu, por detalhe, que nasci de uma junção xx. Eu sendo mulher, ainda honro os colhões de fazer o que faço e mesmo assim mostrar a fineza da feminilidade em minha silhueta e minha sensibilidade contextual. Pâmela it’s such a man! Tio Cid bate na minha testa e pergunta se há algo de errado com a chocolatra – Já vou! Pedimos mais uma cerveja. Logo chega uma loira gordinha e um asco recai sobre a mesa. Rio da espontaneidade mas não deixo de pegar meu chocolate. Sinto o suor das dobrinhas daquele pescoço e uma tensão passageira entre os sorrisos amarelos direcionados ao tio Cid. Quando se conhece a complexa malha de relações entre as pessoas de uma cidade tão provinciana como Porto Alegre, deve-se fazer questão de manter seu lugar, não por uma questão de orgulho, mas por uma questão de amor próprio... e eu odeio a limitação que certas pessoas impõe nelas mesmas por inconveniências. Gente burra e limitada. “What – evá!”

Quinta feira é ano novo... nova sexta, como todas as outras. Quero roupas novas. Comprei esmalte cor de cola tenaz (que é um porre passar sem ficar toda “qualhada” nas unhas), comprei maquiagens baratas que só se usa uma vez na vida pra não dar alergia e quis noite de burguesinha. My very first new year out of home. Uma sensação de desprendimento das grandes asas maternas, da queima de fogos na rede globo e da espumante não alcoólica. Cantei junto com eles, cuidando pra não me empolgar, não bater as mãos no ventilador de teto, fazendo jus à intimidade entre os amigos. Björk, Him, The Cure. Até alguém se dar conta de checar a hora - cada um tem um horário diferente... e ninguém sabia qual era o certo, se já estávamos ou não no maldito ano novo. Foda-se! Que venha a espumante Pita! Que venha a cerveja e a Chandon ‘amaaarga’. Que venha a hora de sair de lá e cair em qualquer pista de dança para evaporar um pouco do álcool... evitar a ressaca de ano novo. Estrear meu novo vestido e a roupa nova dele, nossa nova estratégia, tudo, tudo com cara de melhor e renovado, mesmo não sendo verdade... Tudo parte do ritual.


Sex-ta! Acorda! Feliz ano novo! Ele dormiu na sala. Eu só rio e espero, tentando me lembrar da discussão e de como algumas coisas custam a mudar. Vou jogar Doom até chegar aquele branquelo insolente com a artilharia pesada. Um primeiro dia perfeito, sem a pretensão de o ser. O final - melhor ainda - porque eu sorteei o filme errado, e depois de assistir “A fonte da juventude” ninguém resistiu à introspecção... “Bonito o filme.” - quebrando o silêncio na cama. “Muito bonito.” Nos preparamos para a noite ouvindo trilha sonora de NEO. Olhava-me por trás do espelho – passei muita maquiagem, “desliga essa música se não me empolgo criatura!”

Linda Pâme!

Te amo horrores. Te veste!

Round three: start! Noite de conseguir entrada free em qualquer lugar. O “galo velho” ainda tem seus contatos. Sinto saudades das paredes listradas. Eu opto pelo Porão... Cabaret anda fraco, sempre da pra dar uma última chance pro “gatinho” ou seja lá o que for aquele bicho.
Estamos todos escorados no balcão, com copos de plástico brindando a conversa. Ele vira a cara e eu vejo um vestido preto. Entro em pane. “Bebe! Bebe! Passa! Vai passar! Ufa, passou.”. Mesmo depois de tanta controvérsia, de tanta amargura destilada passando pelo meu pobre coraçãozinho, ele ainda se entrega. Ordinário mesmo!
Quis dançar meus primeiros passos da noite e fomos beber mais umas geladinhas. Ganho uma Smirnoff. É sempre um carinho. Nós que somos uns pobres orgulhosos e gastamos dinheiro que não temos com roupas. Ele, ainda assim, faz seus pequenos agrados – a gente s e m p r e dá um jeito. Vida tu não desperdiça! Dinheiro se corre atrás.
Vitor shaking hands with some morrow. Vou pra perto do balcão e puxo ele pra perto de mim. O “poderoso chefão” o cutuca e abraça com a grande mão dando tapinhas em suas costas. Uns dedos que faltam anéis... pensei. Falava sobre projetos, chamou-me pelo nome e eu que não me faço de rogada já entrei na conversa. Profissionalismo é, antes de qualquer coisa, saber cativar a clientela, não? E assim como eu tenho o charme, aliado a simpatia que o sotaque carregado gera nas pessoas, o Rapha tem a lábia, tem a intuição... apesar de todos os avisos contra, nós conseguimos trabalhar bem juntos, em situações menos esquemáticas. Gosto de sentir a fluência entre um e outro. Gostei de ver o desfecho da conversa, depois de tanto tempo... o Drug vai voltar.

Gritava feito uma boba, dizia que ia pedir isso e aquilo pro Shutz, enquanto ele desaprovava: “DJ tem que saber o que tocar, não tem o que ficar pedindo, poxa.”. Mas ele me ouve, porque eu era na mesma sintonia que a festa e eu queria tudo perfeito. Uma e outra, e mais aquela que eu não me lembrava. Tocavam consecutivamente. E eu dançava, numa felicidade entorpecida, enganada. Batendo os sapatinhos e mexendo as mãos, inventando coreografia para os outros acompanharem. Conheci gente, recebi os elogios das bibas e esqueci da dor, da fome mundial, da louça suja na pia. Sorri para as pessoas erradas, dancei sem querer com quem não devia. Moscona! Fugi pra longe, mas voltei compelida pela onda, pelas pessoas e pela música... todos eram culpados, até dançar com ela. Peixe fora da água que conhecia a terra, sabia quem tocava, e deixava na pista o drama por quem via o mesmo que eu: um peixe fora d’água. Mas ela dançou, e ela era linda e eu me envolvi instantaneamente... paixão pílula. Minhas paixões volúveis e intensas, só minhas. Beijei-a com carinho e sem pudor, diferente do normal - mãos controladas. Dancei mais, notei estar perto de mais de alguém e logo senti a coisa fria escorrer pelas pernas, até os calcanhares... entrando pelos sapatos. Ótimo! Não fiquei brava, nem irritada, nem com vontade de socar a pessoa até ver do que ela é feita por dentro. Foi um sentimento contraditório de alívio, de saber que aquilo era sentimento convertido em ação. Sentimento por mim, que já não sentia mais nada aparentemente. Sussurrei para o teto uma silenciosa e passageira satisfação. Até chegar ele dizendo estar cansado, até ele colocar quem não devia na história... e tudo desanda. Não podia! meu estomago embrulhou, meus pelinhos se iriçam e minhas pupilas se dilatara, como as de um caçador noturno... lembro da noite no Cabaret... da covardia, da falta de tato. Porra! Não agüento mais... e é culpa dele! E eu quis optar pelo caminho mais rápido, longe de tudo aquilo. Disse que morreria. E eu não dei bola... não quis. Ele que me faz tão bem. Que já me deixou claro a sua repugnância por todos aqueles erros de caráter. Fui injusta com ele e não fiz questão de notar. Quis ir embora do lugar, com o coração regurgitado, mas duro de mais pra esquecer.

O céu já estava mudando de cor, inundando a atmosfera em um azul congelante, por mais quente que estivesse. Partimos com eles galhofando, enquanto entravamos no táxi... não entendia nada... foi pedante, patético. Que pena ver gente se rebaixar a esse nível.

Na volta não encostei nele. Dessa vez estávamos os dois bêbados e infelizes, receosos. Lembro que, como uma esponja, eu suguei todas as magoas dele e transformei em um ódio visceral, antes mesmo que ele se tocasse da verdade, da comodidade que o levou a “tudo”... ou a “nada”. Aquele falso moralismo e ciúmes me encheram de pensamentos controversos. Alguém que se mostrava tão culta e flexível. Mas foda-se... eu tinha que pensar em mim. Entender de uma vez por todas que amizades são feitas por afinidade e se havia afinidade lá... bom, eu que fui a pateta.

Sábado. Em casa, me preparava como se fosse embora. O atingi da maneira mais forte, quis fugir de tudo e a melhor fuga era o afastamento da causa mor... Perdi a noção das palavras que falava. Vi no rosto dele a delicadeza da angústia feminina e a decepção de um homem traído. Ele é lindo. Por que diabos fiz isso? Ele não é meu homem, não é meu namorado... ele me é essencial como a água para minhas células... minha extensão homóloga, preciso dele por questões de equilíbrio psicológico... em aspectos extrafísicos, ou sei lá como chamar coisa que ninguém entende direito. Não há em nós papeis pré-estabelecidos, nem yin ou yang. Nossos pólos se invertem e revertem... e não é o sexo que dita esta dinâmica. Por isso não posso me prevalecer sobre algo do qual eu dependo. Atirei-me na cama sem culpa, sem piedade. Fui passional na minha cólera...

Mas atirei no coelho errado.

Acordamos “nós” mais uma vez. Falou-me verdades indubitáveis na cama, e me senti feliz por ter ele tão compreensível e experiente do meu lado. Finalmente. Eu que nunca fui de contar estas lições de moral como vantagem, estou sadicamente feliz. Afinal, não há manifestação mais óbvia de falta de caráter do que partir para atos ignorantes como os que eu senti aquela noite. Agora estamos ambos “batizados” pela inveja alheia, e isso, pra mim, é a maior vitória que poderia pedir sobre quaisquer “opositores” à minha felicidade. E Se alguém pensa que a vida escrita é mais bonita que a real, eu digo que é mal de quem leu muita Lispector e que fala de cada pedra no caminho como uma manifestação idílica da necessidade humana de crescer com os erros, lidando com tudo de maneira subjetiva ao invés de encarar a dor como mera súplica dos nervos – tudo é razão. Tudo é carne aliada ao raciocínio e instinto... nada ascende fora isso.

E sim amor... sou bem o “tipinho” dele.

:*

2 comentários:

Anônimo disse...

C-C-C-COMBO BREAKER!

Pâmela Martini disse...

XD HUAhuaHUAhuuhaUHAhua! chorei!