quinta-feira, maio 29, 2014

Sobre fetos e direitos da mulher

Eu venho acompanhando os post de três amigas de Facebook que estão grávidas. As três com suas inseguranças, desejos, ansiedades, felicidades. E eu sempre fico meio boba pensando que gostaria um dia de me sentir assim, mais pra frente, quando eu tiver atingido maturidade e estabilidade suficientes. Ao mesmo tempo isso trás à mente a possibilidade de acontecer, por algum motivo, no tempo que eu considere errado… Fico me perguntando se eu seria capaz de recorrer ao aborto. Ok, primeiro, vamos nos situar. Nasci em uma família católica, em teoria, e fui criada sob a “luz do espiritismo”, doutrinada de acordo com dogmas bastante rigorosos em aspectos relacionados à vida. Aborto sempre foi tratado como um ato cruel como qualquer homicídio, e durante muito tempo (talvez tempo de mais), eu levei essa ideia sem jamais questioná-la, como todo bom religioso. Quando estava no primeiro ano do ensino médio, minha professora de biologia trouxe o assunto a tona, durante o intervalo, e prontamente vomitei o meu discurso radical, e ela apenas sorriu, sem qualquer sinal de sarcasmo ou tentativa de me apadrinhar, e disse: “Quando tu fores mais velha, tu vais mudar de ideia.” Eu ri: “Jamais!” Em 2011, fiz um post no Facebook em caixa alta, dizendo algo que emulava a ideia de que “Filho não é doença que é contraída e se cura. Arque com as consequências de sua irresponsabilidade.” E inúmeras pessoas curtiram, deixando claro pra mim que aquilo era realmente o correto, de que qualquer gravidez estaria sendo coberta dentro dessa ideia miserável. Enchi-me de orgulho e mantive minha posição firme. Em 2012, tive meu primeiro contato com feministas, com as quais pude formalmente discutir a respeito de assuntos abordados por elas com freqüência, e dentre eles, o aborto. “A mulher tem direito sobre o seu corpo, apenas ela tem a voz para decidir pela maternidade, mesmo após a concepção.” A partir desse momento eu comecei a questionar… questionar… questionar. Em 2013, fui visitar meu querido Jérémie em Paris, e me espantei, tamanha a naturalidade com a qual elas tratavam o assunto. Era uma realidade completamente distante da qual vivemos aqui no Brasil. A mulher francesa TEM este poder, inclusive, em qualquer situação ou estágio da gravidez (apesar de não aconselhável em gravidez muito avançada, pois poderiam haver riscos para a mulher). Depois de ter a oportunidade de discutir e analisar duas realidades completamente distintas e discutir a respeito com pessoas de todas as classes e contextos sociais, inclusive muitas mulheres que já abortaram, eu mesma passei pelo sufoco de pensar que estava grávida (pior ainda, sem saber ao certo quem poderia ser o pai, pois na época mantinha relações com dois amigos e ambos pessoas as quais jamaaais pensaria em estabelecer qualquer tipo de responsabilidade). Felizmente foi um alarme falso que me rendeu dois meses de sufoco, até criar coragem pra fazer um teste. Senti então que tinha o feedback necessário para chegar a minha opinião pessoal… coisa que eu até então não tinha. Qual foi ela? Ambas! Não. Não é incapacidade de me definir, é simplesmente uma consequência decorrente da necessidade de levar em conta que existem milhares de realidades nesse mundo, e para se tomar partido em um assunto tão delicado, todas elas devem estar incluídas. Ok… eu vou explicar melhor. Do ponto de vista biológico, um ser humano passa a existir no momento de sua concepção, independente de que estágio de desenvolvimento em que ele esteja. Uma vez que tu tens um organismo com um código genético de um ser humano único, ele já é considerado um ser a parte. Não há dúvidas quanto a isso. Mas o que fazer com esta informação? O que considerar na hora de chamar este aglomerado de células um ser humano, propriamente dito? Talvez o sistema nervoso? Vejamos. Sabemos que ele se origina lááá no ectoderma, nas primeiras fases de desenvolvimento, um amontoado de células cria o tubo e a crista neural, que formarão respectivamente o sistema nervoso central e periférico, e assim por diante, várias estruturas primitivas vão sendo originadas. Essa diferenciação das estruturas vai até mais ou menos a sexta semana de gestação (período em que praticamente não há mobilidade alguma). Só depois que os primeiros movimentos espontâneos começam a aparecer (estes primeiros movimentos, controlados propriamente pelo sistema nervoso, constituem basicamente em uma série de reflexos, como abrir e fechar a boca, movimentos de sucção e deglutição, preensão da mão, reflexos posturais, etc). A partir da sétima semana de gestação, o feto começa a desenvolver o seu primeiro sentido (o tato). Pela décima sétima semana, toda a extensão da pele do feto já é sensível ao tato, mas os receptores de dor só amadurecem lá pela vigésima primeira, período em que a audição do feto já começa a funcionar. Somente próximo da trigésima semana que a visão, olfato e paladar se desenvolvem e já se pode “interagir” com ele através de estímulos externos. Ok, depois de uma breve aula de embriologia pela miss impaciência, pergunto o que levar em conta na hora de justificarmos argumentos contra o aborto, que superem o argumento anterior que diz que “óvulos fecundados já são consideradas pessoas” (até porque milhares de mulheres estariam “espontaneamente” matando seres humanos nos primeiros dias de gestação… muitas vezes sem nem fazerem ideia). Muitas pessoas tomam a dor como ponto importante a ser relevado, pois essa ideia cria empatia em muitas pessoas, quando o contexto está voltado a um ser minusculo e indefeso. Logo, este argumento poderia ser descartado antes da vigésima primeira semana de gestação, não é? Ou da sétima semana, se você quiser relevar o tato. Isso já daria quase dois meses de gestação para a mulher fazer sua escolha. Outro contra ponto é o fato de que nós vivemos em um mundo que propaga violência de todas as formas possíveis, inclusive, nós fazemos parte dessa violência, direta ou indiretamente, simplesmente comprando um chocolate ou uma roupa em determinada rede (slave work). Aqui cabe repetir o que falei lá em cima: para se sustentar uma posição, nós devemos largar essa mania confortável de apenas nos focarmos em um ponto só. Se existe empatia com um ser porque ele sente dor, então presume-se que esta pessoa também sentirá empatia com qualquer ser vivo que sinta dor… logo você também não esperaria ver ela se deliciando com a carne de um pobre bicho que nasceu sem nem ao menos ter o direito de lutar pelo seu destino, passando a vida confinado e depois brutalmente morto. Ok, ok. Agora, porque diabos eu desviei (por um momento, acalmem-se) o assunto de aborto para consumo de carne? Ora pois… para ilustrar os argumentos restritos a um ponto só, que consequentemente atende apenas a um propósito que não sustenta os outros inúmeros problemas que vêm antes dele e que, por lógica, jamais serão capazes de resolver o problema em sua totalidade e de maneira definitiva. Devemos considerar tudo aquilo que está ao redor influenciando aquele probleminha (ou problemão). Vale resgatar, como outro exemplo, a polêmica nos EUA, onde pessoas que eram contra aborto, ao mesmo tempo eram a favor da pena de morte e vice versa. Seguindo o barco. Sob perspectiva moral, já deixei bem claro que devemos ser bem claros quanto aos argumentos que deem ao aborto o status de “um ato de violência”. Pois qualquer decisão que coloque a vida do feto como prioridade sobre a vida da mãe, já é por si só uma forma de violência, já que é a mãe que está cedendo o seu corpo para abrigar o feto e muito provavelmente, será ela quem terá de doar grande parte de sua vida à criança que irá nascer (espera-se que seja com qualidade, não é?). E não me venham falar de mães que deixam seus filhos com empregadas para desmerecer minha posição. Eu me refiro aqui à todas as mulheres. Eu me refiro à mulher que é estuprada na rua, ou pelo próprio marido/namorado, muitas vezes em culturas que absolvem a culpa do homem em qualquer situação; à mulher que transou com um cara e teve problemas com a camisinha e é obrigada a rever toda a sua vida por um problema que não foi de sua responsabilidade; à que leva a culpa de ignorante por ter transado sem proteção alguma; e à que simplesmente não tem condições psicológicas ou materiais para ser mãe no momento. 'Tirar o poder de escolha da mulher sobre o seu próprio corpo, é um ato extremo de violência.' Agora, vamos analisar a situação sob o ponto de vista social. Quando as pessoas a favor da legalização, suportam sua posição expondo o fato de que muitas mulheres de comunidade carente têm filhos sob condições deploráveis, ou que adolescentes muito novas acabam engravidando. Buenas… eu não vejo onde construir clinicas suficientes para tornar o aborto viável para atender tantas mulheres e adolescentes com qualidade, seria uma solução prática. Nós devemos nos perguntar o porque isso acontece. A resposta está enterrada em nossa cultura, misturando séculos e séculos de machismo e sociedade patriarcal, ignorância, tabu e moralismo hipócrita quanto à sexualidade. Legalizar o aborto não vai diminuir a violência contra a mulher nem conscientizar mais as pessoas sobre a importância de um planejamento familiar de acordo com suas condições de vida nem impedir que adolescentes iniciem sua vida sexual mais cedo e com proteção. Muito antes de pensar nisso, deve-se trabalhar na educação, deve-se destruir todo esse falso moralismo e abrir a cabeça das pessoas quanto à nossa natureza, fisiologia, sexualidade, independente da idade e classe social. Deve-se destruir a sociedade patriarcal e dar voz às mulheres. Deve-se um monte de coisa concomitantemente ao assunto ‘aborto’. É certo que muitos projetos estão ativos, muita gente já está trabalhando lá fora, mas enquanto não houver uma organização que unifique todas estas investidas, nós correremos o risco de não sermos tão eficientes. Sabemos que todo o progresso é lento e é primordial que uma consciência coletiva seja instaurada. Toda solução de problemas maiores exige que trabalhemos em conjunto e não visemos apenas em nossa própria comodidade. Para não me estender mais (porque eu to atolada de coisa pra fazer, hehe), vou tentar resumir minha ideia a respeito desta perspectiva geral sobre a qual baseei minha opinião. O aborto não é nem nunca será uma solução em grande escala (como se do nada toda gravidez indesejada fosse deletada, oh please). Ele tem de ser tomado como uma medida que deve ser implantada sob certos critérios, para amenizar problemas de proporções muito mais abrangentes, inclusive a injustiça contra a mulher. Devemos ter em mente de que existem milhares de problemas sociais em toda parte do mundo que precisam ser resolvidos antes. Por hora, o aborto é tão somente uma afirmação do direito da mulher sobre o seu corpo. Construir uma lei que só atenda a casos de violência, só denota problemas maiores a serem resolvidos (machismo e a própria violência), mas ainda assim, imprescindível enquanto eles não forem completamente sanados. Sexo (heterossexual), sempre implica em risco de gravidez (não vou falar de dsts agora), e métodos contraceptivos devem ser usados indiscriminadamente, e todas as pessoas devem ter acesso primeiramente à educação de qualidade e segundo à contraceptivos gratuitos. Em uma sociedade ideal, homens e mulheres seriam tratados da mesma forma, não haveria violência e sexo seria feito sempre com segurança. As mulheres teriam acesso a saúde e saberiam sempre com antecedência de uma gravidez, e os abortos só seriam necessários em casos de gestações que colocassem a vida da mãe em risco (visando aqui o direito da mãe sobre a vida do filho se ela assim desejar), falhas dos métodos contraceptivos, sempre atendendo um período de tempo restrito para evitar sofrimento, a não ser em casos de morte ou deformações do feto (aqui já abre espaço para uma discussão mais específica, lidando com o aborto de fetos em gestação mais avançada por condições genéticas como síndrome de down, que é uma prática muito comum em países como a França). Eu, pessoalmente, como falei no início, não sou completamente a favor. Considero o aborto uma medida de emergência, pois acredito que todos somos seres que existem além das limitações e perecibilidade do corpo físico, e estamos na terra com o intuito de evoluirmos e nos ajudarmos nesta senda. Eu não considero esta uma posição religiosa de minha parte, apenas vejo este cenário como uma possibilidade que inclusive poderá ser explicada pela ciência daqui uns tempos, e é justamente por isso que eu não lido com a vida através dessa dicotomia do bem e do mal. Tudo é uma questão de ponto de vista e a unica coisa pela qual eu luto é o direito de todos termos o nosso tempo para crescermos e evoluirmos, respeitando a todos mutualmente. Aborto não é nem nunca poderá ser tratado como uma conveniência (motivo pra se cuidar menos porque “qualquer coisa tem aquilo né”), e sim como uma decisão que deverá ser muito bem pensada por parte dos “responsáveis”, logo, viável quando for optada. Sendo assim, minha luta é a título de um direito, sempre visando a mulher como prioridade, mas sem desmerecer o ser em formação. Afinal, a maternidade deve ser uma experiência maravilhosa, cheia de paz e felicidade, e para isso, nada mais justo que respeitar o tempo e o desejo da mulher para que seja plena e prazerosa, não um fardo carregado por repressão moralista do resto do mundo. Kisses from your morning star.

6 comentários:

Anônimo disse...

Achei interessantíssimo o texto em si, bem como seu ponto de vista! Continue escrevendo! Eu adoro sua dinâmica.

Martini disse...

Thanx :)

Anônimo disse...

Há anos atrás, como tu mesma disse, lembro de ler que tu "declarou" que era contra o aborto... eu não opinei nada, pois na época, era um assunto sobre o qual eu não pensava. Depois de ler o que tu escreveu (sobre ser contra), que comecei a questionar também, e percebi que eu não tinha nada contra o ato de abortar, não o condenava... Justamente pelos motivos que tu descreveu agora (a liberdade sobre o corpo, basicamente). Fico feliz que tu tenha tido essa nova ideia.

Martini disse...

haha... não posso me condenar por ter sido ignorante, eu era muito suscetível à opinião alheia.
:) who are you creature?

Anônimo disse...

Eu ainda sou um pouco suscetível à opinião alheia :)
Quem eu sou?
Não vai ter sentido tu saber, sou uma criatura desconhecida tua mesmo.

Martini disse...

porto alegrenses e seus eternos suspenses com minha pessoa.
não tem porque justificar... somos criaturas sociais, nós somos e sempre seremos suscetíveis à opinião alheia, em graus diferentes.
^^