segunda-feira, setembro 06, 2010

Asfxia

“E ai? Como vai a vida?”

Se me perguntarem, não sei exatamente o que responder. Cheguei a um ponto em que nem perguntas retóricas podem ser satisfeitas com um simples “bem” ou “mal”, “sim”, “não”, “já tive melhores”. Tudo na minha vida virou um nó, de uma hora pra outra, por causa de uma porcaria de comentário anônimo, meu mundinho de Pâmela sucumbiu, e tão logo voltou, enfezado, sem ritmo nem rebolado.
Não sei ao certo se foi domingo ou segunda-feira, foda-se. Apenas foi. Duas semanas atrás. Recebi um aviso anônimo escrito “corna’ nas entrelinhas, dessa vez com um nome, local, data. Meu mecanismo de defesa feminino acendeu (tardio e enferrujado), e eu fui à caça de provas... filho da puta, filho da puta asqueroso, mentiroso e ardiloso, vai me pagar com o sangue de barata que circula dentro de ti. Nem tive tempo pra pensar direito em alguma coisa. Não tive escolha, nem honra a ser disputada. Jurei manter os olhos abertos dessa vez. Preenchi o vazio de ar viciado e, um a um, interroguei os mais próximos, os encostados, juntei relatos, testemunhas, inimigos, lembranças, mentiras, interesses. Dei a ele uma última chance de confessar tudo e não vingou. Covarde! Misturei tudo e montei um quebra-cabeças torto e inacabado. Mas foi o suficiente pra mim. O suficiente para uma palavra sorrateira saltar os meus olhos: psicopatia.
...
Evidente que a essas alturas eu acreditaria em qualquer coisa (talvez até drogado, gigolô – tava valendo), mas para mim estava claro: apenas um psicopata poderia criar uma malha tão complexa de verdades distorcidas entre todos a nossa volta, tão apenas para encobrir as suas merdas sem sofrer repressões e convencer a todos de que era “normal”. Trair as futuras filhas, o bull terrier e a esposa perfeita era “normal”. Meu orgulho me cegava – caralho, o orgulho arranca os olhos das órbitas e te puxa pela mão, mas por um lado isso me era um consolo, um resto de sanidade que impedia meu total colapso mental.
Esse martírio me acompanhava durante o dia... Apenas um filho da puta sem noção alguma seria capaz de usar os “amigos” como escudo e patrocínio, de trair e mentir para suas namoradas sem arrependimento algum, de dar em cima de ex de amigo e... Parei! N a m o r a d a s. Se eu soubesse como ele agirá com elas, antes de mim, eu poderia ter mais certeza desse diagnóstico.
Ridículo! Estava perdida-perdida-perdida, doente, obcecada, precisava de provas. Em menos de um dia, tive os colhões para fazer algo que há quase dois anos eu relutava em fazer – por medo! Por insegurança. Mandei a mensagem, nos adicionamos, conversamos. Justo agora e sobre isso! Não neguei a felicidade pueril por finalmente poder falar com a dona B., mas o contexto fodeu qualquer aproximação posterior. Descobri um relacionamento similar ao meu, além de alguns raciocínios muito básicos, uma postura defensiva instável. No final ela a evidenciou e eu, por cargas d’água me justifiquei. Caí fora.
Estava fraca... Duas noites sem dormir. Três dias sem comer, em frente o computador. Sem ir para a aula. Todos deveriam saber sobre a ameaça que ele representava para a sociedade. Não tive tempo pra chorar, nem pra pensar no quão ridículo seria me expor a tudo isso, até que.
Depois que uma das histórias fugiu o controle, eu perdi meu chão. O ‘plano’ começou a ruir. Na hora H, ninguém dava a cara à tapa, verdades secundárias e rixas pessoais começaram a ser evidenciadas. Todos com o mesmo desejo obscuro de ver o circo de alguém pegar fogo e depois apontar os dedos para mim. Mesmo assim custava-o fazer esboçar algum sinal de preocupação. Isso me feria o orgulho, o amor-próprio. Fui forçada a procurar algum suporte psicológico... Um amigo, um irmão. Na loja eu tentei manter a calma, mesmo depois da conversa, mas o orgulho, que me servia de muleta, quebrou em dois. Eu ainda gostava dele... A sinceridade daquele sentimento me corrompeu. Corri para o banheiro e, em frente o espelhinho, senti o primeiro soluço. Não pude mais parar de chorar. Sentia pena pelo meu estado, ao mesmo tempo em que tentava manter a mínima postura. Não fazer escândalo na loja do amigo, espantar clientes com a cara inchada de bicho preso. Secava as lágrimas com pedaços de papel higiênico dobrado, pra evitar que o rímel escorresse. Já era patético de mais estar jogada em um banheiro de lanchonete chorando por alguém que, na minha cabeça, não dava a mínima. Não queria que ninguém me visse daquele jeito no lado de fora.
Foda. Ninguém nunca espera sofrer tanto por algo genuinamente humano e subjetivo, ninguém sabe como machuca não poder cobrar sentimentos de alguém, por ter que se render ao fato de que cada fdp no mundo tem livre arbítrio e que a dor que você sente é descartável. Estava tão mal que precisava provar pra mim mesma que aquela sensação de abandono, depois de dois anos de amor devoto e paixão auto destrutiva, era comum de certa forma – todo mundo sofre disso algum dia. Mas eu estava inconsolável, meu coração estava surdo para a razão.
Finalmente, na sexta-feira, depois de quatro dias de inapetência e obsessão, resolvi tentar voltar à vida. Erguer o corpo magro e ir à luta, talvez até conhecer um menino bonito para iludir minhas verdadeiras necessidades por uma ou duas horas. Chamei uma conhecida que estava saindo de uma bad trip e me encontrei com ela e um amigo, ou-seja-lá-o-que-for. Senti uma ansiedade horrível, meu pezinho formigava de tanto balançar.
_ Onde é que a gente vai?
_ Vamos na open oras.
_ Gatinha, não te expõe. Não vai te fazer bem.
_ Nem bem nem mal.
A conversa me angustiava, obviamente queria ver ele, olhar pra cara dele e me afastar, testar-me assim, sem medo nem pena. E deixei-os. Algumas ligações parcimoniosas e consegui carona com a amiga de uma amiga. Fomos para a maldita open bar, e meu sorriso beirava o alívio, o suspiro momentâneo de uma cabecinha doente. A chuva começou a cair na fila e chegamos secas graças a conveniência daquelas tendinhas de lona, ultra práticas. Na porta minha espinha congelou, olhei para o lado e ele passa por mim com um “tchau” forçado e fedendo a cerveja. Fiz de conta que estava bem, olhei para os lados e senti um vazio no atrolho. Porra, eu ainda gosto dele.
No banheiro uma mão puxa meu braço. Ele voltou. Eu o ignorei, mandei-o a todos os lugares imundos do meu vocabulário e ele se foi. Sorri acima da minha carcaça. Acho tão triste essa sensação de triunfo sobre o seu próprio estado de carência, essa glória falsa e sádica que você sente quando consegue mandar alguém que te fez mal à merda. Penso que a auto-estima das pessoas traídas só consegue ser reerguida com uma derrota. Não existe um pensamento real de igualdade se o seu lado não é mais beneficiado do que o outro, não existe relacionamento incondicional, e não existe fim sem que um cuspa na cara do outro. E nesse instante eu me senti triunfar. Senti cuspir na cara dele, secamente.
A festa me causou ânsia de vômito. O álcool me repudiava. Estava tão alterada que não podia meter nada pra dentro, só jogar pra fora. Como custa encontrar alguém interessante nesse mundinho de Porto Alegre... como custa! Queria me entregar para alguém antes que eu fizesse alguma merda, mas não consegui. Fugi de todos, corri pro lado de fora e comecei a ligar. Uma, duas, três vezes. Te fode! Te fode! Dorme na rua!
Não!
Não!
Não!
... Apaguei...
Nessa hora eu me abandonei nele.
Não quero me foder, não quero dormir na rua, nem na casa de ninguém! Eu quero ficar contigo, quero tua mão envolvendo meu seio enquanto dormimos juntos, quero tu me acordando e roubando chocolate da tua avó pra mim, quero teu corpo aninhado no meu e toda essa confidência falsa que tu me oferecia... Eu quero isso de volta, fodam-se as mentiras, foda-se o mundo. Não me manda dormir na rua!
Por favor...
Isso é horrível... perder o chão no meio da rua, o instinto de auto-preservação. Nem pena sobrou pra mim. Tudo colapsou em um único ponto. E eu precisei pedir ajuda uma última vez praquela vozinha tão doce dela.
_ Pâme. Pâme, levanta daí poxa. Vamos lá pro carro...
Depois de uns minutos ela me levanta. Meu celular quebrado, um bando de bêbados ao meu redor, meu lindo casado sujo e molhado. E eu transformada em bicho, em cão sem dono, atrás do carro de alguém. Só queria voltar pra ele. Não posso me justificar. Estava com um fio ao redor do pescoço, e quanto mais eu tentasse evitar a dor, mais apertado ele ficava. Minhas vísceras estavam borbulhando dentro de mim. Não havia unidade naquilo que eu virei.
Chegando ao apartamento, apertei a campanhia. Três, quatro horas? Continuei tocando. Nem sinal de cabeças pro lado de fora das janelas. Ele desce de pernas nuas, abre a janelinha e me manda embora. Abre de novo e me joga duas miseras notas pra eu sumir. Abre de novo, e de novo, até que me puxa pra dentro... até que eu me arrasto pelas escadas e penso desesperada sobre aqueles degraus. Estava salva da “morte”, da entrega fatal sobre o asfalto. Até ele me mandar embora de novo.
Some! Vai embora! Mas tu disseste que me ama! Que estava arrependido! Porque não me quer mais poxa? Poxa! Não tinha raciocínio nem um pingo de amor-próprio. Era digna de pena, de abrigo, de carinho, da porra da consideração daquele fdp! Mais um ‘some!’... Tu vai ver como tu me ama!
As duas mãos saltaram em cima dele. Ele revidou. Ninguém apareceu. Tu vai ver do que eu sou feita seu cafajeste! Acaba comigo de uma vez! Acaba! Era a violência. O último estágio do desespero havia se manifestado e nada poderia ser mais intenso que aquilo, aquela hora... Intenso de mais pra ser uma daquelas coisas que você supera e se lembra com um sorriso conformado de galo estéril. Não sentia dor. De nada. Forte, mais forte. Até que ele me puxa pra perto dele e eu recupero a consciência das coisas... Ele ainda me ama. Eu ainda amo ele.
Os dois doentes, esfarrapados, entregues. Isso não é saudável, não é normal nem se falar que é. Mas porque faz tão bem quando os dois se entregam à doença? Um o carma do outro.
Naquela noite eu conversei com a mãe dele que sempre foi muito aberta a estas questões. Mas mentes abertas têm poucos escrúpulos e nunca dão os melhores conselhos. Apenas te acalmam e abrem os teus olhos para o senso comum de realidade, não esse que a você cria na base dos sonhos. Minha boca doía, mas consegui dormir.
Puta ironia. Mas consegui dormir em paz, sem sonhar, até chegar o dia e ele entrar.
_ A gente precisa conversar...
Dois animais. Cada um com a sua doença, com os seus erros, uns muito mais graves que os outros. Eu era uma santa perto dele. E sabia disso, em comparação. Decidimos esconder das pessoas quaisquer pormenores comprometedores e admitirmos nossa necessidade recíproca um do outro. Talvez nos separarmos por um tempo, mas esquecer não faria diferença alguma. O dia que um visse o outro... Dói-me ouvir as pessoas que não nos conhecem, nos reconhecerem como casal antes mesmo de nos verem juntos. ‘Corta-me’ os nervos saber que as pessoas, mesmo sendo confidentes das merdas dele, nos consideram um casal perfeito em todos os nossos defeitos.
Dentro disso eu poderia criar forças para começar uma nova vida com ele. Mas estaria mentindo se dissesse que seria possível ver força em comentários alheios. Estaria mentindo se dissesse que estou pronta para passar por cima de todas as advertências de meus pais e tomar na cara de novo; que traição física é menos grave que a da cabeça; que é possível confiar nele depois de dois anos tendo minha vida íntima exposta para afirmar a sua masculinidade; que as noites que ele não ligava eram noites sujas... Estaria mentindo se dissesse que ainda há algum amor dentro de mim capaz de suportar o fardo de um homem inseguro e covarde.
Não há.
Agora nem sei mais o motivo de vir aqui e falar tudo isso pra vocês, caros e descomprometidos leitores... Talvez mostrar que esse mundo é psicopata por natureza e ninguém dentro dele vai de estender a mão de cara, sem segundas intenções; ou apenas para me livrar fisicamente de tudo que está registrado aqui, desde que comecei este blog, sem precisar me rebaixar. Me ver livre da dependência de uma verdadeira droga que me levou aos dois extremos... e me traiu.
Uma droga. O nome dele nunca foi por acaso.

Mas eu agora estou em uma espécie de limbo, não sei se estou bem ou mal. MESMO! Minhas feridas estão cicatrizando e meu mundo precisa de estrutura e muito ar livre. Quero distância.

Talvez um dia eu conheça ele de novo por aí.

5 comentários:

Anônimo disse...

Esse texto é vivo, dói na alma. Já vivi coisas parecidas, é o inferno. Não sei nem o que dizer...acho que a vida mesmo, bem crua.

Pâmela Martini disse...

e nada cura melhor que um gênio realista... floreios sempre te levam a acreditar que talvez.

força para todos nós.

Anônimo disse...

Por mais que tentemos ser firmes, é bem complicado. Enfiamos uma idéia na cabeça, mas sempre fica o talvez.
Negócio é seguir em frente e deixar rolar, como dizem por aí.

Angie. disse...

não tenho palavras para descrever o que senti com esse texto..., mesmo estando out.

Gabi disse...

Agora sim, consegui ter um vislumbre do caso. Não imaginava assim!

(Já leste "A chave de casa"?)

Eu satisfazia uma necessidade romântica e estética de vê-los juntos como um casal que super-combina, mas diante de tudo isto, sério: não tem mais nenhuma graça.

Que venha o caos e a incerteza de uma fase completamente inédita, mesmo que desgraçada. A simples sensação de não estar caindo na eterna repetição já é um alívio, pelo menos para mim foi.