terça-feira, setembro 07, 2010

O sol brilha

_ Não sabia que tinha rota de aviões por aqui.
_ Humm... sim, estranho.
Voavam baixo e o barulho reverberava dentro do forro. Acordei de ressaca, com o sol na cara, um amigo ao lado da cama (o velho amigo) e várias garrafas vazias de destilados me encarando, em cima de uma prateleira na parede oposta. O quarto estava imundo e mergulhado em um cinza pálido de pó. Cds e livros em baixo do travesseiro, estellas artois espalhadas pelo chão. Meu estômago embrulhou. A cabeça latejava enquanto tentava me desenrolar das cobertas presas em minhas botas e do casaco ao redor do corpo dolorido. Meus pulsos estavam marcados das pulseiras e o esmalte das unhas todo roído - nunca duram mais que um dia.
A noite foi longa.
Procurei lembrar dos detalhes mais necessários, das conversas, dos abraços. Peguei um resto de água de cima do aparelho de som e procurei me recompor. Bilís... As furadas que um recém solteiro se mete. Eu preciso me acostumar com as dores de cabeça. Voltar a normalidade é foda, ainda mais quando você já não sabe ao certo o que seria o seu "normal". Afinal, terminar um relacionamento complicado e passar por todos os estágios de Kübler-Ross em menos de uma semana é punk, e você chega ao cúmulo de desejar um pouco mais daquela ilusão cretina quando se da conta do quão podre o mundo é. Mas não. Você precisa ter forças pra voltar a ser normal.
Me entreguei aos pensamentos, agora mais dispersa. Onze horas. O dono da casa em estado de coma e eu começando a ficar ansiosa. Aquela situação estava me deprimindo, tentei ligar para o cara mais uma vez até que fui forçada a pular a janela da faixada.
Livre enfim.
Dia lindo, ofuscante. Coloquei os óculos, mochila nas costas. Resolvi ir a pé até o centro, tomar bastante sol na cara e me divertir com os militares e veteranos que passavam pelas calçadas. Ainda haviam caças sobrevoando àquela hora. Dia da Independência, famílias gordas e felizes com suas bandeirinhas e crianças pobres atrás dos restos de suas felicidades - pequenos comensalistas. Aprendi a não me afetar com realidade, ainda mais quando não é a minha. Odeio admitir.
Passei em frente ao meu prédio e cuspi no chão discretamente. Caminhei mais algumas quadras até a João Pessoa e segui caminho até o centro... Dessa vez curada. A cabeça erguida como um gira-sol, sem um pingo de saudades.

2 comentários:

Rafael disse...

A musica do Coldplay parece feita pra ti...

Pâmela Martini disse...

alguém me mandou pelo formspring... tive que colocar ela aqui por isso.

... bonita.