segunda-feira, janeiro 02, 2012

Smoked

Sinto falta da minha cidade e das noites frias, dos capuccinos no posto de gasolina envoltos em fumaça de cravo, da atmosfera esmaecida de passado que as fachadas preservavam em rachaduras e manchas de infiltrações, desgastes que evidenciavam a vida árdua e negligenciada de cuidados. Parecia-me que Porto Alegre inteira sofria da mesma melancolia que eu e todos que lá viviam. A realidade humanizada em seus defeitos que me a fez amar, disso não tenho dúvidas. Amava tanto que amava tudo. Chegava a sofrer de complexo por certas pessoas, por serem tão próximas. Não entendia essa identificação e sentia remorso com os despertares de desejos impossíveis por elas. Foi Porto Alegre inteira quem me ensinou a esquecer das idéias preconcebidas e encontrar razão além do óbvio. Sempre. Beber pra tentar empurrar coragem pra fora do corpo que nunca parecia estar lá dentro - e talvez nunca estivesse. Sei que insisti. Deixei minhas marcas em portas de banheiros e ruas movimentadas, e junto dele a deixamos mais colorida. De cores que o tempo não oblitera. Aquelas cores que são guardadas na graça da lembrança de quem nos via, de quem fosse capaz de espalha-las com misturas que não eramos capazes de fazer. Aos poucos, a musa decadente, que já havia perdido todos os brilhantes de seus anéis vistosos, ganhava luz nos olhos da noite e na mansidão das tardes de chuva que acolhiam amantes alienados. Era uma graça humilde, que sentenciava a incuráveis saudades por ela.
O peito não nega toda vez que penso em voltar. Sei que que foi melhor não ter insistido enquanto estava psicologicamente inapta, mas agora que a calmaria vem ancorando, chega junto o nó na garganta, e uma vontade de aproveitar essa lucides reconquistada longe da família, daquilo que me equilibra, de quem me proteja de mim.

Um comentário:

Anônimo disse...

divino. essa tua descrição chega a despertar um amor que eu n notava que tinha por porto alegre. deve ser dificil se adaptar longe daqui.