segunda-feira, junho 07, 2010

Gatos amam concreto.

Perguntou-me o que eu faria se fosse ele por uma noite. Entraria na festa mais atrolhada, conquistaria todas as mulheres possíveis e aprenderia a mexer em um daqueles que se tem no meio das pernas – eu mesmo. Ele respondeu algo do gênero. Os dois jogados no vagão do trem, com umas mãos sobrepostas pra enganar o frio. E agora as coisas já estão mornas, e as lembranças não mais tão precisas. Minhas pernas doem horrores pra descer escadas. Minhas costas não estão melhores – é dor de vitória, eu costumo falar. Noites que vingam são noites vitoriosas as quais a gente pendura na amígdala cerebelar com um alfinete, aquelas que você esquece da câmera na bolsa, do amigo que veio a tira-colo, da maquiagem triafuder que você fez e só dança. Sexta. Sexta eu dancei. Dancei como um cavalo, como se eu tivesse gastado todas as minhas economias do mês pra dançar. Nem falei pra ninguém que, enfim, eu ensaiei alguns passinhos em casa antes de sair correndo. Disfarcei o “ícone do Diskoclub” que veio três vezes de bocas diferentes. Dancei no banheiro de zíper aberto e até me esqueci de quem eu não gostava mais pra poder aproveitar a desinibição que a bebida me proporcionava. Uma. Duas. Três. Água. Quatro. Falar besteiras pelos cotovelos, ou apenas falar, o que já é raro. Sem escrúpulos, a noite toda. Meu coração lutava para bombear sangue fino até os pés, enquanto as extremidades formigavam e o único colega de pista continuava firme. “Frouxíssimos amantes de Lady Gaga, agora somos só os dois”. E fomos até a última música, sem gente aplaudindo e se abraçando, só dois felizes exaustos e o DJ.
Memorável. Cumprimentamos o êxito uns dos outros, “espírito canoense, dos meu”. Certo! Perfeito! Saí com o corpo desfalecendo e com a cabeça querendo mais-mais-mais-mais.
Sábado? Sábado as pessoas morrem.
Onze horas. Meio dia e meia. Duas da tarde talvez. Pele quente, sol a pico. Respiração ofegante. Ar viciado. Abrem-se as janelas. Sexta - aniversário da minha avó, 69 anos. Fomos comprar chocolates. Preços. Mercado público.
Trem.
Trem das três e meia. Sentamos juntos. Tempo. Que horas são? Já estamos em 2010! O trem leva 45 minutos até São Leopoldo, demora muito. Já é Junho sabe. Existe o tempo na física e o tempo na neurologia. O tempo do nosso cérebro, do nosso organismo. Isso é filosofia e talvez um pouco de metafísica, não achas? Bom assunto para um TCC. Nosso tempo é relativo às comparações de espaço de tempo entre dois episódios diferentes, entre duas situações que marcam início e fim. É tão simples assim: um sol poente e outro nascente; uma perna quebrada que sara; um relacionamento que inicia e acaba; uma conversa; um jogo; uma internação.
Fim.
Voltamos à noite. E tu, que farias... se fosse eu por uma noite? Te “conheceria” melhor. Claro. Tem que ser rápido. Sabemos de mais um do outro para pensar no que fazer com a mente. E é sábado, certo? Quero dose dupla, quero dançar de novo ao som do sexo auricular reproduzido nas caixas de som e contra baixos: tun-tun-tun-tun-tuuuunnzzzz nos meus ouvidos, para alimentar o espírito. Apostei no Disc-o-nexo. Pinto os olhos. Vamos?
Rua.
Os bares cheios de quem eu não fazia idéia ser. A festa entupida. A música: uma bela merda. Ele não me convenceu que valia os 25 pilas morto só porque tem luzinha cuti-cuti e lazer. Que pobreza, que gente mais ameba, que dançava sem fazer jus ao cubículo de espaço conquistado. Os dois de estampa xadrez não estavam felizes naquele canto. O dinheiro gasto os forçava sorrir o sorriso mais feliz do mundo e dar alguns passos chochos aqui e ali. “Talvez eu tenha a sorte grande e vá pra casa com aquele bombatrance, ou com aquele magrelo de cabelo desgrenhado e barba por fazer que é um charme vigente.” “Vou me entorpecer bebendo ceva porque eu aaaaaamo música eletrônica de festa de 15 anos.” Uhum.
Rapha, eu quero sair daqui.
Duas horas. Partimos para o Porão. Atrolho, micareta de luto. Todo mundo super econômico. Sem ocupar muito espaço pra dançar, sem roçar a mão na bunda do colega do lado. Empaçocados, cada um em seu cubículo “Uhuuul! Aqui toca Lady Gaga, e eu sei cantar”. Um beijo Rapha, que calor. Odeio isso. Gosto muito de ti.
Vamos embora?
Três horas. Perdi minha blusa no meio das sardinhas. Frio. Glicose no organismo. Beijo. Vamos correr? Até o orelhão. Feito! Até o poste. Ok, to cansada e sem pernas de pau pra te acompanhar. Até a esquina? Ok, para que eu to tendo um avc.
9ºC. Vento, sensação térmica de 5ºC. Calor. Os dois atirados na esquina. Como nos merecemos. As meninas de salto passavam por nós como garças no banhado. Passinho-passinho-ui-ui-ui. E eu. Eu decidi que amo tênis e odeio saltos altos, odeio vaidade que limite minha liberdade. Eu sou mais feminina bebendo ceva e arrotando do que essas desengonçadas petulantes. Salto é fetishe, amo saltos, mas odeio. Amo vestidos hiper curtos, mas odeio cruzar as pernas. Amo meia calça, mas odeio gastar 30 pila por cada rasgo e furo de cigarro. Amo ser mulher, mas gosto de sair só com a carteira no bolso.
Diskoclub?
Três e quarenta. Vazio. Dinheiro. Porque não temos dinheiro? Não consigo trabalho. O estudante de direito passa a noite acordada pra ganhar uns pilas – pilas que até nós podemos pagar – e sobrevive. E nós não podemos fazer o que queremos? Por que o dinheiro é tudo e as pessoas espirituosas recusam admitir? Ninguém além de nós na rua. Cacos de whisky que eu gravei. Tudo tão vazio que se ouvia eco. A noite chamava. Os humores inalterados, os bolsos semicheios. A cama nos esperava. Escadas. Minhas e deles. Perniciosas lembranças nas mentes inconseqüentes. Dias, tardes e noites. Agora era uma promessa furada, rindo de uma camisinha sabor morango distribuída na Orgasmo. Um banho. Tudo que foi preciso.
Domingo éramos frescas gramíneas de inverno banhadas pelo orvalho. Felizes e renovados. Fotos! Lucas, fotos! Aproveitamos o dia para tirar fotos e procurar donos de Bull Terriers – sem muito sucesso. Voltas e voltas. Três marmanjos namorando balões de gás hélio. Ninguém teve coragem de pedir um. O botijão de gás hélio custava 800 pilas. Caro afu. Ficamos com o quentão, sem voz de formiga. Cinco horas.
Casa.
Agora está tudo embaçado. Impreciso. Amanhã é segunda e minha vida de gato continua a mesma. Que farei com a semana? Continuo não sabendo ser Raphael. O relógio corre diferente daquilo que penso correr. O dinheiro custa chegar. As dores na cervical são as boas lembranças do final de semana, junto com os pasmos, as cenas cortadas, os carinhos implícitos e as memórias sensoriais sem linearidade. Que farei? Deito a cabeça na mesa e penso que sou uma baita folgada que ama ver os pássaros voando, mas não hesita em abocanhá-los quando pousam ao chão.

E felizmente sempre haverá finais de semana assim pra manter minha consciência longe da responsabilidade que é estar vivo.

3 comentários:

Drug disse...

E felizmente sempre haverá um "magrelo coisudo" para te acompanhar nos finais de semana. "As Aventuras de Pamelusca" seria o nome do desenho. Algo cheio de tiradinhas, de ironias, sarcasmos... mas também repleta de reflexão, amor, respeito. E companheirismo. Pq não adianta nada a intenção somente: tem que ter ação.
Eis uma vida que, mesmo difícil em alguns momentos, vale cada um de todos eles: a nossa.

Pâmela Martini disse...

haha... te embananou aí no final?

Mas entendi... e gostei...

Brigada rapha, mesmo tu estando neste exato momento no msn, eu faço questão de ostentar meu carinho por ti.

Te adoro coiso coisudo magrelusco lindusculo!

Kaike S . disse...

Parabéns, Belo blog .
adorei o texto.
se puder visita
http://pensamentoscontextualizados.blogspot.com/