domingo, novembro 06, 2011

As the rush comes

O primeiro é um expresso duplo com leite. Queria ter feito tanta coisa, mas não me prestei a nada - nada pouco grandioso. É sempre o melhor motivo pra me entregar à depressão melodramática dos finais de semana, até que felizmente um bravo guerreiro me chama pra beber umas na Tha e fazer um flash mob básico na praça da Matriz. Onze e cinco. Pâmela se arruma, decide não querer sexo, marca hora, local, chama taxi, passa brilho na boca, decide querer dançar e beber, calça os tênis de couro falso e vinil, beber. Isso. Exatamente o que eu preciso – falo treinando o sorriso de foto no espelho.
Energético de litro é mais barato. Taxi pela João Pessoa também. Ceva, vodka e gin tônica nos recepcionam no quinto (ou segundo ou oitavo) andar em copos de teenage house party. Muito gelo e lobo mau. Daí foi um toque até nos colocarmos a caminho do meu apartment sweet apartment. Afinal, o vizinho do lado é inexistente e o de baixo é maconhado - almost the same. E a minha sala turns into dance floor, encharcada de azul anil vinda da luz colorida. Sinto forte o gosto da satisfação, e dos froot loops e da vódega com whisky e froot loops do Leo. Três, quatro, cinco da manhã, os corpos batem aqui e ali ao som dos mestres e os copos transbordam o descompromisso que as sextas-feiras trazem à vida de sete proletários exaustos, até que a síndica – “grande amiga” nossa, bate na porta como quem acabou de encontrar a casa do assassino do filho, segurando uma 6mm com silenciador logo abaixo da cintura, decidida. E o coração aperta pause. Fast forward. Eu ouço palavras que cravam feito olhar de mãe quando a gente faz merda em lugar público. E o Prodigy teve que ser substituído right away por um Massive, um Tricky, uma Bjork cremosa. Essa é a hora em que todo mundo jaz atirado no tapete da sala, semi-bêbado, semi-vivo, semi-entregue, semi-nu, metade de cueca, outra metade sem camisa, o Koringa de saia de vinil. Mais amizade que sensualidade. Às 9 da manhã alguém me acorda: “Tchau Pâme.” “Hello hangover.”
Volto pro hoje. Cappuccino com chantilly as second round. O vento sempre é foda aqui em cima e a claridade das três e meia reflete desde a cúpula do Hotel Majestic, até sacadas vazias de prédios pichados ao fundo. Alguns casais de meia idade almoçando risoto e iscas de filé e estudantes de moda fumando e bebendo cerveja foda com cara de quem da o * na balada, mas nada além da fumaça e do jazz improvisado nas caixas de som interferem no meu espaço sagrado. Mal consigo ler o que escrevo, mas deveras o que vejo é mais interessante que uma página vazia de Word. Dou umas lambidinhas discretas no canto da xícara vazia e fujo do sol com a mesa e os 10 kg de livros recém nascidos – porque livro só é livro quando tem dono, quando atende ao seu propósito de existência né. Livro na prateleira é como uma mariposa no casulo e eu amo descobrir as mariposas adormecidas, algumas tão insignificantes e estúpidas como aquelas pequeninhas que rondam abajures, outras imponentes e voluptuosas com suas asas majestosas que intimidam e inspiram a gente. Só aí que notei a taquicardia, e a minha mão acariciando as capas dos rebentos como quem diz: sooon my precious. O terceiro cappuccino chega grosso de chocolate ao fundo. Não arrisco pedir álcool. Beber sozinha é foda e pode me dar recaídas, tipo aquelas que você tem quando liga pro ex-namorado depois de uma noite frustrada, ou quando larga a faculdade no meio do caminho pra seguir o sonho que você descobre tardiamente ter se tratado de muito luxo/tempo ocioso e pouca sinceridade. Até em dias lindos como esse, evito o álcool. Não posso arriscar agora que tudo está se ajeitando aqui dentro, e agora eu digo neste exato minuto, depois de horas comendo pizza e chorando em cima da cama. Porque porra, eu amo isso aqui! Porto Alegre é a casa das almas perdidas, o berço dos mais intensos intelectos e o limbo de todas as pessoas estacionárias. Um tanto-faz com alguma graça que restou do século passado, quando ainda não haviam prédios cobrindo a vista para o Guaíba e a mentalidade provinciana portuária imperava, mas suficiente pra fazer com que eu queira ficar, e poder olhar pros navios e barcos entre as paredes, reclamar do vômito artístico que expõem na Bienal, comprar verduras e queijo colonial no mercado público, vestir casacos de lã no inverno – o ano todo se tiver sorte, sair sem rumo as 2 da manhã quando as paredes do quarto quase me engolirem e encontrar gente conhecida.
Ok, talvez me custe encontrar motivos pra ficar. Cubro os olhos marejados com os óculos escuros e arrisco um irish e toda minha cautela vai por agua abaixo com o Massive Attack nas caixas de som. Queria que tivesse sido diferente. Queria que todo esse tempo aqui tivesse me trazido alguma resposta, mas Lady Murphy sempre trama contra mim. E no final das contas, por mais cansada que eu esteja dessa vida de gato, eu ainda a procuro, mesmo dentro da literatura. Nem mesmo quatro xícaras de café são o suficiente para focarem minha mente dispersa que agora cuida não mais do meu futuro, nem das festas, nem dos navios, e sim das lindas vertebras que saltam a pele daquela moça sentada levemente inclinada contra o sol, o que me da vontade de desenhar e talvez beber algo mais forte enfim.

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