segunda-feira, fevereiro 06, 2012

O bem que fere

_Te contar uma coisa: ninguém controla como o coração vai reagir, e a maioria das pessoas morre com esse bicho desgraçado no peito, sem entender porra nenhuma.
_ Mesmo?
_ Não adianta tchê! Os amores são traiçoeiros, como belas sinfonias que injustamente te deixam triste; como a bebida que te da ressaca no final de uma noite incrível. Tu te submete a um certo mal pelo prazer. Eu sei.
_ Hum... O mais jovem, na casa dos 25, projetava o som entre os lábio semiabertos com um descaso forçado, enquanto olhava para o próprio reflexo misturado às garrafas de whisky e licor das prateleiras de vidro a sua frente.
_ E aquela mulher é capaz de te fazer sentir no paraíso, enquanto demônios puxam o teu pé. Não tenho dúvidas: se eu fosse tu, morreria bem feliz pelo punho do namorado dela, se pudesse dar um beijo naquela boca.
_ E depois?
_ Depois? Depois passava a eternidade lustrando as botas do capeta.
_ Ha... não acha um desperdício morrer assim?
_ Quando a gente morre feliz, não tem diabo que nos faça lamentar os pecados da vida. Mas em caso de dúvida, leva ela pra cama antes.
_ E como é que eu vou poder saber quando vou morrer?
_ Aí que ta, ninguém sabe. E isso te obriga a ser feliz sempre.
Ergueu o copo em menção a um brinde mas recuou com o choque, que lhe percorreu as extremidades, ao notar o colo desprotegido da moça em questão, emoldurado pelo vestido de cetim (era cetim aquilo?), vermelho como a boca, escorando-se sobre os braços cruzados. As unhas redondas e levemente pontudas, que faziam os dedos parecerem ainda mais longos e delicados, tamborilavam ritmos aleatórios, que agora eram as batidas do seu próprio coração, entalado na base da garganta.
_ Que tragédia.
O mais velho tilintou o copo de red ale contra o dele de whisky barato sobre o balcão e sorriu com o canto esquerdo da boca.
_ Te apressa que ainda tem esse tal de ataque cardíaco fulminante.

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