quarta-feira, outubro 12, 2011

I wish I didn't like this

O ouvido zunia com a pancada na cabeça e já era tarde pra voltar atrás, umas 3 cevas tarde de mais. E eu ria de euforia, sozinha lá no meio, de nervo, pouco me lixava se a cara ia ficar inutilizável, eu precisava daquilo, da intensidade física em um contexto conveniente. Empurrava 80 kg de carne pra lá e levava 70 certeiros no ombro direito pra cá. Braços, costela, canelas, a cor do sangue brotava nas luxações e eu sentia um prazer indizível ao atravessar a barreira do incólume, do cômodo, seco e seguro passar das horas da vida real. Dentes moles e cara molhada de vodka, whisky, cerveja, o que mais houvesse naquele coquetel asséptico em copos de plástico que voavam e se despedaçavam enquanto as nossas carcaças eram rebatidas aleatoriamente em meio a pista. Éramos adolescentes mais uma vez, pensava enquanto limpava a maquiagem borrada e pulava no pescoço dele.
Sentia como se o mundo mentisse para as crianças da minha geração. Maturidade nunca me trouxe a paz necessária para viver satisfeita, não a que me ensinaram. Muito pelo contrário, a rotina da disciplina e das contas na caixa de correio todo dia 5, me fez querer experimentar tudo cada vez mais forte, mais alto, descontrolado, quebrar um braço até-que-enfim, me fez questionar o comportamento humano cada vez que presto atenção em alguém. E por isso eu prefiro fugir. Fugir das conversas retóricas, das futilidades, do certo que me aproxima da mediocridade do tédio, do destino de trabalho e sobrevivência, onde beber, falar de futebol e vida alheia, discutir eternos pontos divergentes sobre a dinâmica de relacionamentos românticos, emperiquitada no meio de uma festa ruim é considerado diversão.
Porra, não!
Sei que muitas vezes eu choro e juro da maneira mais sincera que dessa-vez-eu-vou-mudar. Mas não acontece. A incerteza estimula a cabeça, instiga a procura e nada supera o prazer que é ter autonomia sobre o próprio tempo. Saber que quando se faz, é porque realmente se quer fazer, mesmo que seja ajudar criança que vende bala de goma, passar 3 dias sem dormir, ou fumar maconha com o chefe contemplando a vista do terraço (e descobrir depois de 2 anos que eu nunca realmente senti o teto da maria joana – que é ridículo diga-se de passagem).
Talvez a incerteza proporcione ao homem a perseverança em busca de esclarecimento, ou talvez tudo isso não passe de uma simples desculpa eloquente para meus desejos esporádicos de quebrar a cara sem precisar me justificar.

Um comentário:

Marcus Vinícius Manzoni disse...

Ótimo texto, que parece, e é, e não deixa de ser um conto. Oras, é um conto. Maravilha de palavras e histórias emaconhadas encontrei por aqui, o começo foi avassalador... "os dentes moles", aí destruiu. 10 pra ti, tchê! Beijo, Tini.